diários e conversa

Blog Entryabaixo de BragaAug 27, '09 6:33 AM
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Sobre a expressão «mandar alguém abaixo de Braga»  - e o que está por trás do nome daquele bar no Leblon...



Mandar alguém abaixo de Braga é o mesmo que «mandar àquela parte», «despedir uma pessoa em tom ofensivo de desprezo», «mandar embora».

A origem é obscura. (Já não é... porque o Vinhas, o userid10, contou toda a história! - ler o seu replay.)

Braga começou por ser uma povoação dos Galos Célticos Brácaros, tribo galaica localizada na região da actual Braga e seus arredores. Chamavam-lhes brácaros por usarem uma peça de vestuário denominada “braca”, termo este que evoluiu para “bragas” e que queria dizer “calções”. Posteriormente, essa palavra passou a designar uma espécie de ceroulas usadas pelos pescadores, tintureiros e outros. 


Brácaros era, pois, o nome da tribo galo-celta que terá fundado a povoação, cuja origem remonta aos tempos pré-históricos. Do nome do povo derivou o nome da povoação, da actual cidade, Braga, e dos seus habitantes, os BRACARENSES.

O início da cidade terá sido uma citânia no alto do monte, circundada por castros que se destinavam à sua protecção. Esta povoação foi conquistada pelos Romanos em 250 a. C., tornando-se o centro de toda a região que incluía o actual Minho e a Galiza, em Espanha. Os Romanos fundaram então ali, na base da serra de Falperra, a cidade a que deram o nome de Bracara. Dedicaram-na ao imperador Augusto, denominando-a de Bracara Augusta. E a cidade tornou-se a capital de toda essa região, a Galécia. A cidade foi conquistada pelos Suevos em 419, que a tornaram na sua capital política e intelectual, e, mais tarde (em 456), pelos Visigodos. Durante este período, a cidade manteve o nome de Bracara Augusta. Em 715 caiu em poder dos Árabes, tendo sido reconquistada, a partir de 740, pelo rei de Oviedo, D. Afonso, “o Católico”. Em 985 foi de novo tomada pelos Árabes (o califa de Córdova, Almançor). Mas este novo poder não durou muito tempo, porque foi reconquistada pelo rei de Leão D. Afonso III e entregue como dote por D. Afonso IV de Leão a sua filha D. Teresa quando esta casou com D. Henrique de Borgonha. Foram estes os pais do  primeiro rei português, D. Afonso Henriques.

(tirado do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)



Blog Entrymeu personagem de hoje, duzentos anos depoisFeb 11, '09 6:15 AM
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Comprei ontem a LER porque trazia na capa a foto de Darwin (1809-1882), o grande tema deste número da revista e uma das figuras que mais admiro na história humana.
Num dos artigos - aliás, todos muito interessantes - sobre ele, vem a indicação de um site imperdível, com farto material e, em mp3, a leitura do seu BEAGLE DIARY.
E há ainda um outro.
Seguem os dois endereços:

http://darwin-online.org.uk

http://aboutdarwin.com

Também fiquei sabendo que em outubro será editado aqui em PT, pela Quasi, o livro A ORIGEM DAS ESPÉCIES, traduzido a partir da sua primeira edição!
No mínimo folhear eu vou!
 

Blog Entrynovamente OutonoOct 28, '08 12:58 PM
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Venta. Muito. Tive de ir à rua, ao banco, ao mercado, e era uma luta caminhar contra o vento, que me empurrava na direção contrária. Um cheiro forte e bom de resina vinha dos galhos e pequenos frutos arrancados dos pinheiros e espalhados pelo chão. Poucas pessoas nas calçadas. Todos com certeza metidos em algum lugar, evitando o incômodo daquela força invisível contra a qual não há nada a fazer. A natureza age e é assim. É ter paciência até que ela se acalme.
Chego a casa e a porta entreaberta da varanda deixou entrar folhas soltas, expulsas das árvores. Deixou entrar terra e pó. E o ruído, que me faz sentir ameaçada de algum modo, impede que eu me concentre inteira no trabalho com o prazo no limite. De vez em quando vêm uns estrondos lá de fora, que não sei distinguir; como se algo desmoronasse. Me assusto.
Se o vento entrar pela noite, já sei que vou demorar a dormir. De madrugada ele traz presságios e me deixa inquieta. Tira a solidez e constância das coisas. Abala o mundo onde, iludida, me deixo estar segura.
Um amigo, para me acalmar, me diz que o Outono aqui é sempre assim; e que por ser sempre assim, o vento, pra ele, é bem-vindo; confirma os ciclos a que está acostumado. Faz parte do seu mundo, do mundo onde ele se sente seguro.
Bem ao contrário de mim.

Blog Entrylugar-comum Jul 20, '08 10:37 AM
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Enquanto lia, dei umas boas risadas. A porta aberta da varanda, se o vizinho do prédio em frente me pega em flagrante vai pensar "aquela doida ali rindo sozinha enquanto olha pra uns papéis". Eu sei que tenho de ler com outros olhos. Atentos de outra maneira. Mas o livro é bom, a trama me chama e não consigo deixar de ler aquelas frases sem sentir emoção, ou sem ficar pensando... Volto e releio agora com olhos profissionais - tem que ser. Mas há livros assim, ou partes de livros assim, ou parágrafos assim. Às vezes me calham coisas que eu nem sonhava. E leio frases que nem sonhava. Frases que me fazem pensar "por que não percebi isso antes?..." ou então "afinal não sou... não sou a única pessoa a sentir essas coisas, que pensei deveriam ser um segredo bem guardado, e afinal todo o mundo sente... pelo menos sente parecido...". E é engraçado que não passam de frases, mas agora feitas de palavras vivas. Mesmo sendo trabalho, algumas coisas que leio são mesmo muito libertadoras. Não me importo nada de me descobrir fazendo parte do lugar-comum dos mortais quanto aos sentimentos e medos que toda a vida carrega. Assim as coisas já não explodem e estilhaçam tanto. Ou pelo menos já é possível encontrar as partes espalhadas por aí.

Blog Entryfazer as pazesJul 9, '08 10:28 AM
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Na verdade eu nunca estive brigada com os contos. Mas já disse aqui em algum lugar que era um gênero que eu não apreciava muito. Dei uma justificativa qualquer, tipo "preferir as histórias longas" ou algo assim.

Mas parece que as coisas acontecem mesmo à medida. Caiu-me nas mãos um livro de contos pra rever... e não é que tenho andado apaixonada por essas curtas histórias?! Não todas. Os contos (de um mesmo autor) são um pouco desiguais. Mas há alguns fantásticos. E a tradução também está muito boa.

Ontem, em vez de trabalhar em casa, resolvi levar o trabalho para a biblioteca. Pra mudar um pouco de ambiente. E a certa altura, lendo um conto em torno de um quadro de Léger, até surgiram umas lagriminhas... que eu controlei, afinal.
Nem gosto assim muito do Léger, mas chegando a casa fui logo à internet ver o que havia dele, e até escolhi um detalhe de um quadro (Three Women) dele pra ficar um tempo no headshot, substituindo um pouco a minha pessoa, cuja imagem ali no canto direito às vezes me cansa. No conto, o nome atribuído ao quadro não é real; nem sei se o quadro é - acho que não. Mas toda a história tecida em torno dele é magnífica.

E por essas e outras, estou neste momento a fazer as pazes com os contos.
Quando o livro estiver publicado, digo nome e autor.

Blog EntryCremildeJun 1, '08 6:34 AM
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Nunca pensaria num nome assim para um bairro. Ainda mais aqui nessa terra, onde os nomes são tão previsíveis... - menos os nomes dos lugares! E aí, pra minha surpresa, fico sabendo que moro num minibairro de Cascais chamado Cremilde. Minibairro sim, porque aqui é assim, minúsculo mas cheio de subdivisões e fronteiras administrativas.
Ali em cima é o bairro J.Pimenta, que fica numa parte alta de Cascais e tem uma vista deslumbrante pro Atlântico; mais abaixo, o bairro dos Pescadores - pescadores de facto, e não de fato -, com barcos estacionados entre os carros; daí atravessa-se a rua e é o bairro da Caixa, por causa de uma agência do banco estatal Caixa Geral de Depósitos que eu sempre chamo de Caixa Econômica; e assim por diante.
O Cremilde é o menos característico. Não há nada de especial como referência, a não ser o silêncio, o sossego, principalmente quando os meus vizinhos do andar de cima estão viajando =/ e, aí sim, eu consigo acordar e ficar na minha preguiça sem ter que aturar o rádio desde cedo tocando aquelas mpp, e até mpb, que a gente já não aguenta ouvir mais: ou porque são ruins, ou pela repetição.
Mas assim mesmo vou curtindo "o" Cremilde.

Blog Entryo mar, o marMar 30, '08 11:33 AM
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Quando trabalhamos com livros, em edição, tradução ou revisão, somos muitas vezes obrigados a encarar textos ruins, desinteressantes, e isso só pra dizer o mínimo. Mas também somos surpreendidos por livros bons, bem escritos – bem traduzidos!! -, e até inspiradores. Nessas ocasiões, lamentamos ter de ‘trabalhar’ no texto, ter de estar atentos a infinitas coisas, sem aquele à-vontade da leitura por simples prazer.

Hoje estou terminando um trabalho que me reteve por quase três semanas: a revisão de um livro apaixonante, um depoimento de Jacques Cousteau sobre o mar e a vida.
Foi trabalho, é verdade, mas um daqueles poucos que valem a pena.

Cousteau foi muito criticado no meio científico, talvez porque ele, por sua vez, tenha criticado ferozmente outros interesses mais ou menos ligados a este mesmo meio. Não sei – só calculo. Desconheço os meandros dessa história toda. Mas sabemos, pelos filmes que vimos na tv, o quão apaixonado ele foi pelo seu trabalho e pelas pesquisas ligadas ao mar. Pois é sobre tudo isso que ele fala neste livro.

O título não posso ainda mencionar, mas vou fazer isso tão logo o livro seja publicado. Por outro lado, não posso evitar fazer esta menção, citando, ao mesmo tempo, um pequeno parágrafo:

“Os ciclos do dia e da noite da natureza impõem a mais sutil obediência à longínqua Camada de Dispersão Produnda, no fundo do mar. Nos nossos primeiros anos a bordo do Calypso, reparamos que, ao crepúsculo, as nossas sondas acústicas que captavam os ecos indicavam-nos, rotineiramente, o que parecia ser um fundo falso que se erguia suavemente em direção à superfície. E, de manhã, antes do amanhecer, a aparição voltava para o fundo.
(…)
A 24 metros de profundidade, avistamos as primeiras pistas que reforçavam  o nosso palpite sobre este fundo falso que subia e descia como que por magia: remoinhos nebulosos de plâncton, alguns peixes pequenos e crustáceos minúsculos. A 50 metros as criaturas estavam ainda mais coladas umas às outras e a elas juntavam-se centenas de pequenas lulas, que nadavam em sentido ascendente, a brilharem como lâmpadas de gás em plena noite. A 100 metros estávamos ainda envolvidos nessa verdadeira sopa, de onde escapavam camarões diminutos, em direção à superfície distante. A migração noturna, subindo e descendo inexoravelmente, era desencadeada pela luz, geradora de vida através da fotossíntese, fabricante de oxigênio, arquiteta do belo.”

Felizmente, há mil formas de experimentarmos a vida. No livro, Cousteau fala de como foi a sua. E consegue emocionar.



(foto tirada da internet)





Blog EntryretalhosFeb 24, '08 8:06 AM
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Estou ouvindo agora na rádio um programa especial sobre Cuba e a decisão de afastamento de Fidel depois de 50 anos. Ouvi sempre prós e contras sobre Fidel, sobre o regime, e, confusa entre a complexa realidade e o mito, sem nunca ter ido à Ilha, além de um pouco avessa a me aprofundar em certos temas, nunca cheguei a ter uma opinião formada sobre Cuba.
Mas enquanto escrevo esse postzinho sem importância, ouço a voz de uma jornalista, alguém de Honduras ou da Guatemala, a contar que a América Central está completamente dominada pelo narcotráfico, e quem não se enquadra, morre.
Ignorava que isso se passasse lá com tal dramaticidade. As revelações da mulher na rádio me afetam, fico tentando imaginar o presente e o futuro dessas populações, mas por pouco tempo: é um mundo desconhecido que, pelo menos por enquanto, está muito mais distante de mim do que as questões mais prementes do meu dia-a-dia.
Mas por um momento saí do meu retalho de realidade, sem o qual também não seria possível olhar para este mundo vasto mundo.

Blog Entryo inverno chegou mesmoJan 5, '08 11:55 AM
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Há pouco conversava em off com a Graça.
Falava deste dia cinzentão - neblina cerrada, frio, chuva fina, humidade - contra todas as previsões da meteorologia.
É isso: a gente pode prever, mas na última hora a natureza é que manda.

Fechada aqui no meu bunker, trabalho um pouco, paro um pouco. Várias camadas de agasalho porque o aquecimento não dá conta da temperatura baixa. E já sei que o dia vai passar assim, entre trabalho e vindas ao computador, um chá ou um café pra ir acompanhando as horas, algum telefonema de amigos igualmente preguiçosos nos seus cantos, e mais tarde talvez um show da Amy Winehouse que gravei ontem da tv a cabo.

Mas é preciso amar também esses dias.






Blog EntryAdélia diz o que não consigo dizerOct 19, '07 9:08 AM
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Cinzas

 

No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.

Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.

Tive filhos com dores.

Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,

eu tirava da bolsa um quilo de feijão.

Não luto mais daquele modo histérico,

entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre

e a seu modo pacifica.

As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.

Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.

Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?

Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,

um copo mal lavado. Mas que importa?

Que importam as cinzas,

se há convertidos em sua matéria ingrata,

até olhos que sobre mim estremeceram de amor?

Este vale é de lágrimas.

Se disser de outra forma, mentirei.

Hoje parece maio, um dia esplêndido,

os que vamos morrer iremos aos mercados.

O que há neste exílio que nos move?

Digam-no os legumes sobraçados

e esta elegia.

O que escrevi, escrevi

porque estava alegre.

 

 

O Coração disparado, Adélia Prado


Blog EntryDiário 7: dia normalMay 16, '07 10:30 AM
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Mudar pra Cascais está revolucionando a minha visão dos dias, embora eu já suspeitasse de algumas constatações que faço hoje. Do que são dias bons, ou menos bons… Por exemplo, um dia normal pode ser uma das melhores coisas desse mundo.
Ontem e hoje o carpinteiro, o Sr. Daniel, está aqui dando uma ajeitada nas madeiras que enrijeceram com o tempo e precisavam de um afago. Um armário na casa-de-banho deu aquele jeito: o secador, a perfumaria, os remedinhos, essas coisas - tudo encontrou o seu lugar.
Hoje é a vez das gavetas da cozinha, antes tão emperradas que mal se conseguia abrir.
E como não pude fazer o almoço em meio a ferramentas e pedaços de madeira e pó pra todo o lado, resolvi almoçar naquele restaurantezinho do Sr. Mário, a que já me referi aqui outro dia. 'Ementa': arroz com feijão preto – claro! –, folhas inteiras de couve, deliciosas, e umas carnes que filei do cozido; daquelas que a gente vai esfiapando, hmmm. Também pedi um punhado de farinha pra pôr no feijão (até me perguntaram se eu era baiana – ao que expliquei que herdei esse gosto do lado da família do Maranhão), e só uma taça de vinho branco fresco. Preço único, de modo que a gente pode sempre pôr mais um pouquinho do que quiser.

Depois saio, atravesso a rua em direção a casa e venho pensando.
Pois é, um dia pode ter tantas nuances de prazer. Ver que a casa afinal está ficando arrumada é bom; depois, como foi prático almoçar fora, aqui por perto. Volto pra casa onde um novo trabalho me espera e, mais tarde, conforme a temperatura, penso em dar umas voltas por aí, imaginando talvez a viagem que sonhamos fazer a Cuba.

Um dia normal pode parecer pouco às vezes. Mas não é.


Blog Entryeu nunca tinha visto o meu coraçãoApr 3, '07 3:05 PM
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Mas vi-o hoje.
Há muitos anos soube que tenho uma levíssima alteração na válvula mitral do coração. Não sinto nada, mas de tempos em tempos o médico me pede um exame só pra ver se continua tudo bem. Hoje foi um desses dias. Passei no Centro de Saúde e o médico me pediu para fazer um ecocardiograma na clínica do Dr. Castanheira - e lá fui eu.
Como havia vaga, esperei um pouco e logo fui chamada.
Seguindo a orientação dada, tirei a blusa e, deitada, virei-me para a esquerda, enquanto o médico fazia pressão sobre o local do exame. Observei então, pelo reflexo numa chapa de acrílico junto à parede, próxima ao meu rosto, as imagens que apareciam na tela atrás de mim. E com som.
Pois o óbvio me surpreendeu. Ouvia os batimentos e via na tela todo o movimento do coração. Mas o que me impressionou foi que, numa determinada posição do aparelho, eu via como que uma explosão vinda de dentro do coração, um fogo, uma chama que, com a sua força vital, distendia as paredes da válvula, num movimento ritmado. De repente, foi como se "caísse a ficha": é isso, é essa chama que me mantém, que nos mantém.
Olhem que não sou religiosa, embora admita o mistério. Mas naquele momento pensei, com uma emoção diferente, no enigma de tudo isso.
Acho que nunca vou me esquecer daquelas imagens e sensações. É claro que já vi na tv vários documentários sobre cirurgia cardíaca, etc. Mas não há nada como ver "a nossa própria máquina"!
Divina?...

Blog Entryhistórias de migrantesMar 24, '07 11:43 AM
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Aos sábados, às vezes vou a um café-restaurante aqui perto de casa. Em parte por um pouco de preguiça de cozinhar, mas sobretudo porque sei que aos sábados tem feijoada. E além da feijoada tem caipirinha. E além da caipirinha tem música brasileira: por exemplo, hoje ouvia com grande prazer o Raul Seixas na sua “Metamorfose ambulante”.
(De manhã tem pão de queijo quentinho!)

O dono do Spiadela é um senhor muito simpático, sempre muito gentil e atencioso com todos, e brincalhão. É português, mas a princípio pensei que fosse um brasileiro que tivesse pegado o sotaque daqui. Então, pouco a pouco, a cada vez que vou lá, puxo conversa e fico sabendo mais um espisódio da vida dele.
Emigrou para o Brasil, para o Paraná, aos dezessete anos, através de uma “carta de chamada” do irmão, que já tinha ido pra lá. Esta “carta” era um documento que existia na época, em que uma pessoa – no caso, o irmão dele – se responsabilizava por outra, em todos os sentidos, durante cinco anos. Após os tais cinco anos, o recém-chegado (já menos 'recém') recebia o “modelo 19”, um documento, segundo ele, dado somente aos imigrantes portugueses que se tinham mesmo fixado no Brasil.
Com o tempo, acabou por encontrar aquela que viria a ser a sua mulher, mãe dos seus cinco filhos, todos nascidos no Paraná. Ela também era imigrante portuguesa, tendo ido pra lá com os pais.
Ele (ainda não sei o seu nome…) me contou, por alto, que conhece quase todo o Brasil, tendo, inclusive, ajudado a fundar uma cidade (...?) em Roraima: está lá a sua assinatura nos registros da fundação. Conhece o Mato Grosso todo, o Sul todo e por aí a fora.
Voltou pra Portugal com a família – só uma filha ficou no Brasil, casada com um brasileiro – em 1988, e aqui recomeçou a vida.
Tem uma expressão afável, alegre, e o sotaque é mesmo um misto de português daqui com paranaense.
Ele adora o Paraná. Pelo pouco que me contou, teve no Brasil uma vida boa e plena. Talvez tenha voltado por aquele impulso de voltar à terra natal, mais cedo ou mais tarde.
A nossa conversa acontece enquanto ele me dá o troco ou prepara um cafezinho – daí ser assim, um pouco aos bocados, fragmentada. Mas ainda vou saber mais: porque acho bom ouvir a vida das pessoas. Não por curiosidade pura e simples, mas porque a vida das pessoas tem valor, e traz histórias de épocas, de momentos da vida humana em geral.


Blog Entrybreve crônica do quinto dia (após mudança)Mar 23, '07 2:28 PM
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Cascais, sábado, 3 de Março
Primeiro dia que dou a mim, com direito a almoço na marina e vinho.
Antes, as arrumações a que não consigo ainda fugir, a visita da companhia telefônica, e depois... um bom banho quente com creme e perfumes.
Saio para um dia feliz no meu pequeno paraíso. Lá fora, o mormaço, morno, acolhedor. As pessoas passam, curtindo o dia, a pausa necessária da semana; e eu era bem capaz de ir ficando a envelhecer por aqui, revigorada por esses ares ao mesmo tempo de mar e de campo. Campo, sim, porque acordo com os passarinhos e ouço o galo cantar logo ali; mas depois ando uns quinze minutos e é o mar, e o cheiro do mar - o Atlântico, caminho entre as minhas duas casas.


Blog Entrya pedidos, (a minha) Copacabana anos 50/60Mar 16, '07 3:24 PM
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Bem, em 52 eu só tinha 1 ano; mas vamos lá buscar alguma coisa na memória traiçoeira.
Vim ao mundo em Botafogo, passei pela Tijuca, depois o Leblon, e afinal Copacabana. As mudanças continuaram depois, mas paremos em Copa, que é o que interessa.
O prédio ainda está lá, pilotis azuis, e eu o reconheço quando, hoje, o ônibus passa voando pela Barata Ribeiro, acelerando, num barulho infernal.
Naquela época ninguém se preocupava muito em comprar casa própria: os aluguéis eram acessíveis e a classe média até vivia bem. O apartamento era grande, de fundos, talvez oitavo andar, e dava para os fundos de outros inúmeros prédios. Lembro de um primo, o Jorge, que morava na zona norte e vinha à praia, ficando hospedado lá em casa. Ele adorava ir pra janela e ficar bisbilhotando certas janelas proibidas. Pelo comportamento dos adultos, eu tinha a certeza de que andavam vendo “coisas” … que eles achavam que eu não sabia o que eram…
Lembro da boa sala, com luz indireta; lembro bem dos dois quartos, num dos quais meu irmão e eu, no Natal, tentávamos driblar o sono, querendo dar de caras com o Papai Noel; lembro da garagem, onde brincávamos com outras crianças.
Minha mãe adorava e ouvia muito Edith Piaf, e o som da sua voz ficava espalhado pela casa.
Lembro dos banhos de mar, eu pequena numa bóia daquelas grandes, de pneu, com meus tios à volta, só no balanço das ondas, sobe, desce... Acho até que ainda posso sentir o cheiro do mar…
Mas há outras lembranças de Copacabana, do tempo em que já não vivíamos lá. É que a família do meu pai – muitos tios e tias e primos – nunca saíram do bairro. Então, todos os domingos íamos cear (esse verbo ainda se usa?) na casa do meu avô, na rua Santa Clara. (Na verdade, tenho duas casas na memória, que misturo.) Minha família paterna sempre foi muito musical. Todos tocavam algum instrumento: piano, violoncelo ou violino. Eram verdadeiros serões musicais. Tínhamos até um coral em família, com as quatro vozes: baixo, tenor, contralto, soprano.
Na volta pra casa – que agora já era de novo na Tijuca –, da janela (embaçada pela maresia) de um fusca azul-claro, e apesar do sono, eu gostava de observar os namorados ao longo da praia com pouca luz (ainda havia aqueles postes antigos, lembram?), sentados nos bancos, despreocupados do resto e aos beijos, agarrados. Ainda não havia os túneis, de modo que contornávamos uma boa parte da orla – sem aterro, claro. O mar era logo ali, do outro lado do muro baixo.
Depois, em algum momento entre os anos 50 e 60, um primo, o Vinhas, passou a tocar na noite, e a bossa nova invadiu a minha vida. Ganhei um violão, aprendi a tocar de ouvido, decorei as letras, e vivia nisso. A música continuou na minha vida, através do canto coral, até bem pouco tempo. Mas essa Copacabana acabou.
Nos anos 60, muita coisa me escapou, é verdade, porque, mesmo em plena adolescência, a minha vida já estava estruturada na zona norte do Rio, e os dias de Copacabana tinham ficado pra trás. No entanto, quando volto lá hoje, várias sensações retornam. Às vezes por quase nada, só por olhar os desenhos das calçadas, ou por passar em frente a alguma loja que teimou em permanecer.


Blog EntryPedaços de livros - KunderaFeb 1, '07 8:09 AM
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... os seus saltos soando no passeio fazem-me pensar nos caminhos que não percorri e que se dividem como ramos de uma árvore. Você despertou em mim a obsessão da minha primeira juventude: imaginava a vida à minha frente como uma árvore. Chamava-lhe então a árvore das possibilidades. Só durante curtos momentos se vê a vida assim. Depois ela surge como uma estrada imposta de uma vez para sempre, como um túnel donde não se pode sair. Contudo, o antigo aparecimento da árvore permanece em nós sob a forma de uma indelével nostalgia. Você recordou-me essa árvore, e, em troca, quero transmitir-lhe a imagem dela, fazer-lhe ouvir o seu murmúrio feiticeiro.

A Identidade
Milan Kundera

Blog EntryÉ bom sentir saudadeNov 1, '06 4:25 PM
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Anteontem, conversando por telefone com minha mãe, houve uma altura em que eu disse: gosto de sentir saudade... Mal sabia eu que hoje, vendo o filme "Vinícius", teria a plena confirmação do que falei. Foram duas horas de saudade extrema. Nem sei se, entretanto, respirei.
O filme trouxe não só o Vinícius: trouxe todos os outros, e o tempo. Décadas de 50, 60, 70... Ouvir aqueles poemas que tantas vezes li, as músicas que toda uma geração cantou; rir dos muitos momentos contados com graça pelos parceiros musicais e amigos e filhas...
No fim do filme, ainda bem que alguém tomou a iniciativa de aplaudir: era o que eu estava louca pra fazer. Saí da sala usando os óculos de grau, que pouco uso, pra disfarçar os olhos molhados. Põe saudade nisso! Hoje vou dormir feliz. Obrigada, Vinícius.


Blog Entryàs vezes é quase um poemaSep 30, '06 2:22 PM
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Peguei o "2 - Bairro da Serafina" no Marquês, pra me trazer até Campolide, me deixar na esquina da minha rua. É tão cômodo. Mas hoje, logo que entramos em Campolide e o ônibus parou um ponto antes do meu, entraram muitos velhos. (A população aqui é predominantemente velha, uma coisa que observei com espanto quando vim pra cá.)
Bom, e aí começam os diálogos:
- Tás bem?
E o velho com a bengala, todo atrapalhado pra sentar no banco:
- Tem que ser...
E duas senhoras, uma logo à entrada do ônibus, e a outra, conhecida dela, que foi se sentar lá atrás, conversando à distância:
- Tás bem?
- Como Deus quer...
- E o Pedro?
- Muito magrinho... Com aquelas mazelas...
Bem, esse tipo de diálogo é recorrente nos transportes públicos, e principalmente nos ônibus, onde as pessoas que se conhecem se encontram porque vão sempre pros mesmos lugares, os mesmos bairros. Então é aquela conversa de vizinhos... velhos ("velhotes", como eles dizem aqui).
Sinto falta do carro - que não tenho - pra pegar estrada e dar umas voltas. Mas no dia-a-dia, essa convivência nos transportes públicos, com todo o tipo de conversas e encontros, é interessante. Às vezes é quase um poema.


Blog EntryKonstandinos KavafisMar 25, '06 2:16 PM
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O ombro ligado


Disse que bateu numa parede ou que caiu.
Mas provavelmente seria outra a causa
do ombro ferido e ligado.

Com um movimento um tanto brusco,
para tirar de uma estante algumas
fotografias que queria ver de perto,
desatou-se a ligadura e correu um pouco de sangue.

Voltei a ligar o ombro, e ao ligar
demorava um pouco; porque não lhe doía
e eu gostava de ver sangue. Coisa
do meu amor aquele sangue era.

Quando se foi embora encontrei aos pés da cadeira
um farrapo ensanguentado, dos panos,
farrapo que parecia para o lixo directamente
e que nos meus lábios pus,
e que conservei muito tempo -
o sangue do amor sobre os meus lábios.



(foto de José Manuel)







Blog EntrybrisaDec 16, '05 7:18 AM
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Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.

Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.

No Nordeste faz calor também.

Mas lá tem brisa:

vamos viver de brisa, Anarina.

               Manuel Bandeira

 

                              

(quadro de Beatriz Milhazes)



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